Opinião

Jean Wyllys e o complexo de édipo impossível

Lula não é o nosso pai, e Jean bem saberia disso se algum dia tivesse tido a preocupação de conhecer e compreender a história do PSOL.

Por Renata de Paula

No dia 20 de maio o ex-deputado Jean Wyllys anunciou que se desfiliaria do PSOL para se filiar ao PT. Conforme declarou ao Estadão, a mudança de partido acontece porque ele não tem “vontade de participar da disputa interna do PSOL, que é muito desgastante”. O ex parlamentar considera um erro o lançamento da pré-candidatura de Glauber Braga e que o PSOL deveria apoiar Lula imediatamente.

Porém, o que mais gerou consternação em parte da militância, foi Jean ter qualificado como “Complexo de Édipo” – rivalidade emocional com a figura paterna – a oposição ao lulismo no PSOL. Por isso, antes de entrarmos no tema deste artigo, acho pertinente fazer um resgate de como surgiu o PSOL. Voltemos, então, ao ano de 2002, quando “a esperança venceu o medo” e o PT chega pela primeira vez na Presidência da República.

Antes mesmo de vencer a disputa presidencial, Lula deu uma guinada programática ao lançar a famosa “carta ao povo brasileiro”, no qual se comprometeu integralmente com o programa neoliberal e a dar continuidade aos principais pilares do governo FHC. Após vencer as eleições, Lula montou um governo de conciliação de classes, emprestando seu prestígio, construído ao longo de anos de lutas populares, para aprovar as reformas de caráter liberal contra o próprio povo.

A chegada do PT ao governo não levou à nenhuma mudança profunda na estrutura do país, como milhares de ativistas e lutadores esperavam. No final das contas, continuou vigente a velha máxima: quem tem muito, ganha mais, quem tem pouco, tem que dividir com quem não tem nada.

A primeira demonstração de cabal de que o governo petista havia aderido, de corpo e alma, à cartilha neoliberal aconteceu na reforma da previdência de 2003, na qual Lula usou todo o seu prestígio para vencer a resistência do funcionalismo, principal prejudicado, e aprovar as mudanças que FHC não havia conseguido fazer em 1998 – quando o próprio PT e CUT tiveram participação determinante para derrotar parte da reforma.

A reforma da previdência de 2003 desencadeou a primeira ruptura massiva com o PT e com a CUT, em especial na base do funcionalismo. Ao mesmo tempo, a cúpula petista, sinalizando que não toleraria críticas ou insubordinação frente à sua guinada programática, expulsou a senadora Heloísa Helena e os deputados Babá, João Fontes e Luciana Genro, então conhecidos como parlamentares radicais, por terem descumprido orientação partidária e votado contra a reforma previdenciária, mantendo-se fiéis à posição tradicionalmente defendida pelo PT.

Deste processo nasceu o PSOL, cujo objetivo, desde sua fundação, era se tornar “um abrigo para a esquerda que não se vende e não se rende”, para lembrar do jargão usado como mote no seu primeiro encontro nacional. Desde então, o PSOL se situou na oposição de esquerda ao governo Lula, antevendo que, cedo ou tarde, haveria mais rupturas, abrindo “caminho para uma alternativa de esquerda consequente, socialista e democrática”, como está gravado no programa do partido.

Além disso, do ponto de vista da organização partidária, como o PSOL se constituiu como um instrumento de frente única, congregando ativistas e lutadores dos mais variados matizes que se opunham à guinada liberal do PT, foi determinante o reconhecimento do direito de tendências, correntes e dissenção pública nos seus estatutos. Isso foi uma renúncia à ideia de partido de posição única, e autorizou o debate político de forma pública, não só para dentro, mas também para fora das fronteiras do partido, sem o que teria sido impossível a unidade para a formação do PSOL.

Esta foi uma história da qual Jean Wyllys não fez parte, e talvez por isso nunca tenha compreendido estes princípios programáticos e estatutários fundamentais do PSOL. Jean só ingressou no partido em 2009, depois do escândalo do mensalão, quando o PT começava a ser questionado na sociedade por ter abandonado a histórica bandeira da ética na política.

Desde o seu primeiro mandato como deputado federal, Jean Wyllis se consolidou como uma importante liderança na luta contra as opressões e em defesa das pautas LBTQIA+ no parlamento. Contudo, sua atuação sempre se pautou na tentativa de resolver o problema de opressões através de reformas graduais, rumo a um capitalismo mais humano e inclusivo. Ou seja, ele nunca esteve comprometido com a luta pelo socialismo, pela transformação radical da estrutura social e política do país, como está inscrito no programa do PSOL.

Deste modo, é importante salientar, não foram os acordos programáticos, mas justamente os princípios de pluralidade de pensamento e direito de tendência, que Jean hoje qualifica como “lutas internas desgastantes”, o que permitiu a sua filiação e permanência no PSOL durante todos estes anos.

Mas a transformação gradativa da sociedade através da atuação parlamentar, que sempre foi o eixo prioritário, se não único, de atuação de Jean, mostra grandes limites na atual conjuntura. O crescimento da corrente protofascista, que se expressa institucionalmente em Bolsonaro, estende seus tentáculos por toda a sociedade, em especial no aumento da violência contra as minorias e na repressão contra aquelas vozes que se insurgem contra esta tragédia.

Foi justamente esta violência e repressão, estatal e não estatal, que levou Jean a renunciar o seu mandato de deputado federal e se autoexilar. Não quero aqui condenar a sua escolha, que se baseou na defesa da sua integridade e da sua vida, e que, portanto, é bastante legítima. Mas impossível não reconhecer que, para lutar contra as opressões, é necessária uma postura muito mais radical e combativa do que apresentação de projetos de lei e discursos na tribuna do parlamento, principalmente quando a opressão agride e mata todos os dias aqueles que não têm a opção de se autoexilar.

Neste aspecto, Jean Wyllys demonstro que, embora seja uma liderança importante na luta contra as opressões, é uma liderança limitada, sem energia e resolutividade suficiente para enfrentar os enormes desafios e grandiosas batalhas que temos diante de nós. A ida de Jean para o PT demonstra justamente este limite. Na verdade, ele sonha que uma vitória eleitora de Lula sobre Bolsonaro irá colocar as coisas no seu devido lugar e voltaremos a uma normalidade democrática.

Mas este sonho não passa de uma ilusão ingênua. Mesmo que Lula vença as eleições, o bolsonarismo continuará existindo na sociedade, nas polícias, nas milícias, no fascismo real que as pessoas enfrentam todos os dias nas favelas e nas vilas. Da mesma forma, enquanto não for resolvido o problema de desenvolvimento do país, a crise econômica e social continuará se agravando, e com isso a deterioração das relações sociais continuará se aprofundando. As coisas nunca mais voltarão a ser como antes. Ou seja, a história, assim como nossas lutas, só pode andar para a frente.

Antes de concluir, quero responder a duas falácias levantadas por Jean Wyllys quando deixou o PSOL. Primeiro a que disse que a candidatura de Glauber Braga enfraquece a luta unitária contra Bolsonaro. Prova disso é que tanto Glauber como as correntes do PSOL que defendem a sua pré-candidatura, estiveram na linha de frente nos atos do dia 29 de maio e agora na construção dos atos de 19 de junho pelo Fora Bolsonaro, já! Não preciso dizer que a construção destas lutas unitárias contra Bolsonaro contou com muito pouca ajuda de Jean.

O que pretendemos com a pré-candidatura de Glauber é debater, com o ativismo e com a sociedade, o programa que será implementado após a derrubada de Bolsonaro. Neste aspecto, a unidade com Lula e com o PT para derrotar o inimigo comum e mais perigoso, não anula as diferenças programáticas que temos com a socialdemocracia. O PSOL tem opinião e identidade própria.

Por fim, no que toca à deselegância infantil de Jean Wylys, que acusou os que defendem a pré-candidatura de Glauber de sofrer de complexo de édipo, quero dizer que, mesmo no PT, sempre tivemos a coerência de apontar os limites e erros do Programa Democrático e Popular defendido por Lula e pela maioria da direção petista. Junto com os parlamentares radicais, fomos expulsos do PT por mantermos nossa coerência e aglutinamos energia para fundar o PSOL.

Portanto, é impossível termos complexo de Édipo em relação à Lula, porque ele não é o nosso pai. E Jean bem saberia disso se algum dia tivesse tido a preocupação de conhecer e compreender a história do PSOL.

Mas espero, sinceramente, que Jean encontre o seu caminho no PT. Isso não impedirá estejamos lado-a-lado na luta contra as opressões, bandeira que também defendemos. Quanto a nós, seguiremos defendendo a história do PSOL e a nossa coerência. Continuaremos sendo militantes pela mais ampla unidade para derrotar Bolsonaro, mas apontando a necessidade de superação dos limites do programa democrático e popular.