PSOL

As falácias contra a pré-candidatura de Glauber Braga

Ao contrário do que Boulos, Talíria e Juliano Medeiros afirmam, uma pré-candidatura do PSOL à Presidência da República não só reforça a luta para derrotar Bolsonaro, como também pode colocar em discussão o que é necessário fazer para superar a crise econômica e social brasileira.

Por Daniel Emmanuel

Na última terça-feira a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre o “racha” no PSOL*, causado pelo lançamento da pré-candidatura do deputado Glauber Braga à Presidência da República. Além de alguns trechos do manifesto da pré-candidatura, que já foi apoiado por milhares de militantes, o artigo também traz, como contraponto, com algumas declarações de Guilherme Boulos, da deputada Talíria Petrone e do presidente do partido, Juliano Medeiros.

Que Boulos, Talíria e Juliano venham criticar o lançamento de uma pré-candidatura do PSOL não é nenhuma surpresa. Afinal, eles são dirigentes das correntes Revolução Solidária, Insurgência e Primavera Socialista, que estão unificadas em torno do “PSOL de Todas as Lutas”, agrupamento que não tem poupado esforços para que o PSOL seja parte de uma aliança eleitoral capitaneada por Lula.

O que causa estranheza são os argumentos usados por eles para criticar o lançamento da pré-candidatura de Glauber. Em linhas gerais, os três consideram inoportuno o lançamento da pré-candidatura pois entendem que a iniciativa desvia o foco de lutas mais urgentes, como a vacinação, o combate à fome e o impeachment de Bolsonaro. Além disso, Juliano chegou a invocar resolução aprovada pelo Diretório Nacional do partido em março. Na interpretação dele, o texto veda qualquer debate sobre tática eleitoral antes do Congresso Nacional do partido, que deverá acontecer em setembro.

Parecem argumentos fortes, mas no fundo não passam de enormes falácias. O motivo das críticas não tem nada a ver com a organização das lutas mais urgentes e pelo Fora Bolsonaro. O objetivo, na verdade, é impedir que a discussão sobre uma candidatura própria ganhe peso no PSOL, já que isso dificulta a aproximação com o lulismo pela qual eles vêm militando há algum tempo.

Se Boulos, Talíria e Juliano realmente acreditassem nos argumentos que levantam contra a pré-candidatura de Glauber, precisariam também dirigir suas críticas contra o deputado Marcelo Freixo, que há algum tempo tem atuado para construir uma ampla frente eleitoral no Rio. Caberia também uma autocrítica do próprio Boulos, que já abdicou de concorrer à Presidência da República em favor de Lula, e tem se movimentado bastante para costurar uma aliança eleitoral em São Paulo.

Como diz o ditado: “a prática é o critério da verdade”. E por esse critério, fica evidente que os representantes do “PSOL de todas as lutas” têm um juízo bastante seletivo a respeito da pertinência do debate eleitoral neste momento. Isto é, se a discussão vai na direção de uma candidatura própria do PSOL, então ela é impertinente, atrapalha a luta pelas pautas emergenciais e contra Bolsonaro; agora, se o debate eleitoral pavimenta caminho para uma ampla coligação com o lulismo, aí não tem problema nenhum.

A preocupação com as dificuldades que a pré-candidatura de Glauber pode trazer para as negociações eleitorais com o lulismo pode ser bem identificada na declaração de Talíria, reproduzida pela Folha. Segundo ela: “A derrota de Bolsonaro passa pela unidade, não pela fragmentação. A prioridade em 2021 não pode ser eleição de 2022. O PSOL neste ano deve priorizar a luta por vacina, comida e moradia para o povo e a luta pelo impeachment de Bolsonaro”.

Tenho muito acordo com ela sobre quais devem ser as prioridades do PSOL e sobre a unidade para derrotar Bolsonaro. O problema é que ela fez esta declaração para criticar a pré-candidatura de Glauber, pois, segundo ela, é uma iniciativa que atrapalha a unidade da esquerda em torno destas pautas mais urgentes. O que faltou foi ela explicar como, exatamente, uma pré-candidatura pode prejudicar essa tão necessária unidade.

A crítica soaria incompreensível se não soubéssemos que Talíria se refere a um tipo específico de unidade. Ela não fala de uma unidade nas lutas diretas por estas pautas urgentes e pelo Fora Bolsonaro, como todos defendemos e como que já vem sendo feito há muito tempo, mas sim de uma unidade eleitoral das esquerdas em torno de Lula. Só assim faz sentido dizer que uma pré-candidatura do PSOL atrapalha a unidade da esquerda. E aqui pegamos a deputada no pulo, fazendo o debate eleitoral que ela tanto condena.

A falácia de que uma candidatura própria do PSOL atrapalha a unidade para derrotar Bolsonaro não é novidade nenhuma. O argumento foi usado a exaustão pelos dirigentes do “PSOL de todas as lutas” para deslegitimar inúmeras iniciativas que propunham uma candidatura própria do PSOL nas eleições municipais do ano passado. Pelo visto será necessário combater novamente esta artimanha agora, durante os debates preparatórios para o Congresso Nacional do partido.

Aliás, não só esta falácia, como todas manobras e artimanhas utilizadas para inibir o debate dos militantes, prática que já se tornou marca registrada dos Congressos e Convenções do PSOL. Neste aspecto, chama a atenção a interpretação que Juliano Medeiros faz sobre a resolução do Diretório Nacional. Segundo a declaração reproduzida pela Folha, ele diz que “O diretório nacional do PSOL decidiu que todo o debate eleitoral vai ser organizado a partir do congresso”.

Dito desta maneira, o que se pode deduzir é que todas as discussões relativas à tática eleitoral estão “interditadas” até a realização do Congresso, como foi noticiado pelo repórter da Folha em outro trecho do artigo. Mas, se fosse assim, Juliano precisaria reconhecer que, não só Glauber, mas também Freixo, Boulos e ele próprio estão descumprindo a resolução do partido, pois é público e notório que todos estão “antecipando o debate eleitoral”.

Mas em nenhum lugar da resolução pode se ler que os militantes, agrupamentos e instâncias estão impedidos de fazer o debate sobre tática eleitoral antes do Congresso, como Juliano deu a entender. A resolução, além de estabelecer, corretamente, que os eixos prioritários do PSOL devem ser o enfrentamento dos efeitos sanitários e econômicos da pandemia e a unidade para derrotar Bolsonaro, afirma que o Congresso do partido terá o papel de aprofundar o debate sobre tática eleitoral.

Ora, dizer que o Congresso irá aprofundar o debate sobre tática eleitoral é coisa muito diferente do que dizer que o debate vai ser organizado a partir do Congresso. O que ocorre aqui, usar um jargão jurídico, é que Juliano Medeiros faz uma “interpretação criativa” da resolução do diretório. Mas uma criatividade surreal, pois não tem pé nem cabeça o entendimento que ele reproduz.

Se é papel do Congresso aprofundar o debate sobre tática eleitoral, como afirma a resolução, é óbvio que o Diretório Nacional não poderia proibir, mas sim incentivar que as bases, os grupos e as correntes do partido desenvolvam um amplo debate sobre este assunto – assim como os demais temas da pauta – e, com base neste amplo debate, eleja seus delegados à etapa nacional do Congresso. Pelo menos isso é o mínimo que se deve esperar de um processo democrático.

Mas, conhecendo bem o modus operandi de Juliano e da Primavera, corrente ele faz parte, posso afirmar que é precisamente este amplo debate que eles queriam evitar. Isto porque sabem que a pré-candidatura de Glauber unifica os grupos e militantes que defendem uma candidatura própria do PSOL, que não tem pouco peso na base do partido, e dificulta que os dirigentes do “PSOL de todas as lutas” continuem operando livremente a inclusão do PSOL em uma aliança eleitoral com o PT.

A tática eleitoral que o PSOL adotará precisa fazer parte de uma estratégia geral, que parta dos enfrentamentos mais urgentes que temos agora, como os problemas sociais e econômicos causados pela pandemia e a necessidade de derrotar Bolsonaro, mas também coloque no horizonte o que é preciso fazer para resolver os problemas estruturais do país. E um debate desta magnitude só pode ser feito de forma séria, clara, sem subterfúgios e sem falácias.

A respeito dos enfrentamentos mais urgentes, todos temos acordo que é necessária uma ampla unidade para lutar por vacinas, por emprego, contra a fome e para derrotar Bolsonaro. E as bases do partido tem plena clareza disso. Tanto que, desde o ano passado, enquanto os dirigentes do “PSOL de todas as lutas” ainda tergiversavam se era ou não momento de agitar o Fora Bolsonaro, nossos militantes já estavam na linha de frente, junto com ativistas de outros partidos e organizações sociais, travando esta luta.

Porém, a necessária unidade na luta por estes objetivos comuns não elimina, de forma alguma, os desacordos estratégicos que temos com o Lula e com o PT. O PSOL nasceu da compreensão de que nenhum dos problemas estruturais do país será resolvido através de um governo de conciliação de classes, base Programa Democrático e Popular petista. Não foi à toa que o PSOL se colocou como oposição de esquerda durante todos os anos dos governos Lula e Dilma, denunciando estes limites.

Deste ponto de vista estratégico, colocar o debate sobre o que é preciso fazer depois de Bolsonaro na sociedade é tão necessário e urgente quanto a unidade para derrotá-lo. São tarefas que se complementam. Assim, é preciso afirmar que o PSOL estará unido com todos os que lutarem para derrotar Bolsonaro, mas, ao mesmo tempo, e imprescindível reforçar a autonomia e identidade do partido, apresentando-o como uma alternativa para organizar as batalhas futuras.

A pré-candidatura de Glauber pode ser uma importante ferramenta nesta empreitada, pois sinaliza para a esquerda e para o conjunto da sociedade que, além da unidade para derrotar Bolsonaro, o PSOL está disposto a ir além do lulismo, superar os limites do Programa Democrático e Popular, e ser parte na construção programa alternativo, de transformação radical da sociedade.

Este deverá ser o grande debate do Congresso do PSOL. Espero, sinceramente, que os dirigentes do “PSOL de todas as lutas” tenham a responsabilidade de conduzir esta discussão de forma fraterna e responsável, não através de subterfúgios, manobras e falácias.

* TAVARES, Joelmir. Racha sobre 2022 opõe Boulos e Erundina no PSOL. Folha de São Paulo, Poder, A10, 11/05/2021.