Opinião

Uma casta destinada a morrer

Banalizar a morte dessas 27 pessoas na chacina de Jacarezinho é não fazer o mínimo esforço para entender a real e maior tragédia brasileira: a nossa pobreza econômica, que empurra parte da juventude trabalhadora para a marginalidade social. Em tempos de Bolsonaro, fica mais evidente esse ciclo exacerbado de ódio e intolerância.

Por Tainara Hanke

Em uma das minhas tantas manhãs de trabalho, em uma comunidade pobre e periférica de Caxias do Sul, observava crianças que brincavam na rua, provavelmente por estarem sem aula devido a pandemia. Brincavam sem máscara, com seus “carrinhos de rolimã” no meio do asfalto, ignorando o perigo da COVID e do trânsito de carros no local.

Em um desentendimento, um dos meninos falou para outro: ‘te dou um tiro na cara’. Quase que instantaneamente, me veio a lembrança de uma mulher dessa mesma comunidade, que era dependente química e a quem eu atendia, mas que no início de 2021, infelizmente foi assassinada com um ‘tiro na cara’ quase que no mesmo local em que as crianças estavam a brincar. Ela morreu como viveu: invisível ao Estado, transformando-se em mais um número a somar nas estatísticas, mais um boletim de ocorrência, mais um caso não solucionado pela polícia, e uma a menos para ‘incomodar’ a ‘ordem’ social.

Quando somos concebidos, já está predeterminado nosso lugar na violenta estrutura social, dividida em classes, gênero e etnias. Isso quer dizer que, antes mesmo de nascermos, o mundo já nos definiu um papel a desempenhar nessa ordem, o de opressor ou de oprimido. Esta lógica euro-ocidental separa os seres humanos entre pessoas de primeira categoria, pessoas de segunda categoria e os não pertencentes a nenhuma categoria. Ou seja, seres humanos que não podem e nem devem ser tratados e vistos como seres humanos.

Essa lógica também condiciona nossas escolhas individuais e determina o curso da nossa vida. Desde cedo aprendemos quanto vale a nossa vida para o Estado e para sociedade. Estes destinam a “não humanidade” para aqueles que são considerados incapazes de produzir, para aqueles que nasceram fadados apenas a serem o exército industrial de reserva. A estes seres é negado o direito à alimentação, à infância, à escola, à habitação, à convivência familiar, ao trabalho, à riqueza socialmente construída; é negado o direito de sentir, de ter afeto, de sofrer, bem como o direito de questionar o destino imposto.

A esta população, VIVER é um grande ato de rebeldia, porque a ela foi destinado apenas o galardão de sofrer e morrer com as mazelas sociais produzidas pelo deus capital, sendo literalmente a CASTA DESTINADA A MORRER em prol do bem-estar do sistema.

Para esta casta, o contato com a morte é diário, é comum, e isso muda sua percepção com relação a vida, que se torna algo fugaz, vil e etéreo. Vive-se pouco, morre-se cedo. A morte pode vir aos poucos, pelas precárias condições de habitação, de alimentação, pelo não acesso ao saneamento e à saúde ou pela precariedade nas relações de trabalho. Mas também pode ser rápida, pela violência social, violência familiar e, muito mais comum do que se noticia, pela mão do Estado através da polícia.

Em um lugar onde os conflitos se resolvem com “um tiro na cara” é também o local onde o Estado Democrático de Direito é apenas uma fábula, pois para esta população, o direito primordial à vida lhe é constantemente contestado, permitindo-se apenas uma forma de sobrevivência precária, subalterna e de preferência invisível.

O que um jovem negro, pobre, sem educação, desempregado e periférico tem a perder quando entra para o tráfico? Se não o único “direito” que acaba de acessar, o da Vida com um pouco mais de dinheiro e respeito? Vida boicotada de todas as formas pela sociedade e pelo e Estado, e condenada à brevidade e a privação.

O que aconteceu na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro na semana passada, legitima a lógica do sistema onde existe a necessidade de se ter um grupo destinado a morrer em um massacre, em um genocídio, em uma execução, em uma guerra perdida contra as drogas. Este cenário escancara a concepção de um Estado necro-político, que elimina de forma higiênica e exemplar os pobres, e que não tem como objetivo acabar com a pobreza, mas sim acabar com os sujeitos empobrecidos.

O julgamento de quem merece viver ou morrer, não requer outra coisa a não ser o bom senso daquele que empunha o fuzil, e é no meio da rua, da sala de estar ou no quarto de uma criança que, em questão de segundos, o sujeito é julgado e punido com a morte, alimentando o ciclo de barbárie, negando o direito à infância para centenas de crianças que presenciam este tribunal.

Em um circo midiático do absurdo, se deixa claro que a “justiça” que prevalece no Brasil é parcial, elitizada, branca, masculina e que pouco tem de diferente dos chamados tribunais do crime. Nossa elite branca e estudada, quando olha para meninos das favelas empunhando metralhadoras, fica chocada, e afirma que a civilidade não chegou naquele povo.

Esta mesma sociedade não questiona o fato de seus jovens, a partir dos 16 anos, poderem frequentar cursos de tiro, acredita na justiça da bala e resolve uma briga de trânsito também com “um tiro na cara”. Prega uma civilidade que não tem, que não exerce e que não busca. Questiono inclusive que civilidade euro ocidental é esta que aplaude a morte de alguns, menospreza a dor de muitos, e que chora seletivamente a morte de outros poucos.

Enfim, banalizar a morte dessas 27 pessoas na chacina de Jacarezinho, menosprezar a dor de mães e familiares que amam, sofrem e se culpam pela vida desgraçada e pela morte violenta e dolorosa dos seus entes, e achar natural que o destino de tantas outras pessoas pobres, pretas e faveladas, mesmo aquelas que ainda nem nasceram, possa ser o de morrer sentada em uma cadeira de plástico, em frente à sua casa com um tiro de fuzil no peito, é não fazer o mínimo esforço para entender a real e maior tragédia brasileira: a nossa pobreza econômica que empurra parte da juventude trabalhadora para a marginalidade social. Em tempos de Bolsonaro, fica mais evidente esse ciclo exacerbado de ódio e intolerância.